222 085 949, 964 899 958 ou 934 961 540 - 24 horas

Um mau marido pode ser um bom pai? O filme responde por si!

Excertos da entrevista ao Jornal Público, sobre o filme do realizador francês Xavier Legrand, 39 anos.

Custódia Partilhada corre do filme de tribunal para o thriller e chega ao terror.

Realizou uma curta-metragem, Avant que de tout perdre (2013), a história de uma mãe e dos seus filhos que um dia resolvem expor a situação de violência de que são vítimas — como quem revela o  segredo que os envergonha e que todos acompanharam sem o saberem, sem o notarem, sem repararem, o que é paradigmático na violência dentro da família, podemos estar ao lado e nem repararmos.

“Sim, a violência conjugal sabe bem esconder-se. Infelizmente é certo e sabido que todos conhecemos de perto ou de longe alguém que é vítima desse tipo de violência, mesmo ignorando-o. É uma verdadeira omertà.

Toda a gente diz que é um filme sobre a violência conjugal, mas é antes de tudo um filme que coloca o problema da parentalidade e da conjugalidade. A Justiça francesa, por exemplo, considera que a violência conjugal é uma violência sobre o cônjuge e que as crianças que vivem nesta relação parental não são afectadas por ela, não são colocadas em perigo, porque a violência não se dirige a elas. É o debate que se abre: um mau cônjuge pode ser um bom pai? Tenho uma ideia sobre isso e assumo-a plenamente. A violência familiar é um assunto em que ainda há uma série de tabus em todas as mentalidades, meios sociais, culturais e religiosos. É uma terrível calamidade que parece não recuar. Sinto-me tocado por isso como cidadão — nomeadamente, porque sou homem e acho que os homens não falam suficientemente disto e é tempo de isso acontecer. E porque não suporto que no meu país, onde se diz ‘tragédia familiar’, em vez de se dizer ‘assassínio’, quando um membro da família mata outro, uma mulher seja assassinada pelo cônjuge ou ex-cônjuge a cada três dias”

Já o ouvimos referir-se a Custódia Partilhada como gesto político, porque “fala de um facto social, de leis que o regulam e de mentalidades que se formam à volta dele e que é preciso mudar, para que se questione o sistema”. Por isso, tem sido surpreendente para alguns a forma não menos convicta como colocou o thriller no lugar do filme de “temática social”; a forma como um tema “sério” se faz thriller.

“É verdade que alguns espectadores reagem a isso”, concede. “Mas era primordial insuflar cinema de género para não ficar no nível do filme social, ou seja, ao nível teórico. Ou então seria melhor fazer um documentário.”

Isto não é mesmo teoria.  Até porque, conta Xavier para legitimar a passagem de um género a outro, encontrou durante a pesquisa “muitas vítimas” que ao descreverem as suas vidas “descreveram situações de thriller”. (Foi nesse momento que ele tomou a tal decisão de “começar  o filme como Kramer vs Kramer e acabar como Shining.)

Custódia Partilhada trabalha então as possibilidades de intensificar a experiência de espectador — não é um  filme “sobre” —, nunca fazendo esquecer que se está a ver um filme.

“Um assunto espinhoso e exigente como a violência na família e a tomada de reféns de crianças deve permitir outras perspectivas que falem ao maior número de pessoas possível. Acredito que o poder do cinema é dar outra visão aos assuntos abordados. Pela ficção, pela identificação das personagens, pela consciência plena de que se está a ver um filme e não um documentário ou um filme ‘social’ que muitas vezes insiste sobre a mesma nota negativa e miserabilista.”

thriller é então libertação, elevação. Estamos a escrever e a reviver pela memória uma sequência de Custódia Partilhada. Aquela queembora tratando-se de um momento de perseguição com um objectivo — um pai corre atrás de um filho, um persegue, o outro foge, para descobrir onde é que a ex-mulher e a família agora moram —, se desprende da narrativa e se concretiza sem objectivo algum a não ser o de aprisionar o medo. É uma coreografia depurada suspensa sobre a narrativa, pedaço de abstracção como num western urbano de John Carpenter (atiramos isso a Legrand e ele responde: “É verdade, é a experiência do medo. É um cinema mais corporal do que intelectual. É uma dramaturgia da emoção mais do que a reflexão” — isto é dito, surpresa, por um cineasta francês).

Entrevista na íntegra aqui

APCriar

Deixe o seu Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

%d bloggers like this: